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  • Carmem Farage

Modernidade Gasosa ou o futuro virtual.


“Este devaneio que tive em meio a uma noite de sexta feira, em março de 2019, na filarmônica de Belo Horizonte, lugar em que tenho costume de frequentar, juntamente com minha querida nora Bárbara, me anunciou um futuro, que jamais poderia imaginar que estaria tão próximo. Hoje, em julho de 2020, em meio a uma pandemia virótica que já ceifou a vida de milhões de pessoas no planeta, penso que minha epifania é real e que em breve desfrutaremos dessa modernidade gasosa.”


Sexta-feira é dia de ir à Filarmônica. O concerto sempre começa às 20:30 em ponto. Eu termino meu dia de atendimentos aos meus pacientes calculadamente às 19:50, pois levanto de minha poltrona de onde os realizo de meu computador, vou até a cozinha, e ao mesmo tempo em que movimento as pernas, decido por comer alguma coisa leve antes de me acomodar novamente na melhor poltrona da sala e acomodar os equipamentos virtuais de última geração que adquiri e que tem o propósito de me “ligar” a qualquer lugar com o qual eu queira interagir.

Particularmente gosto das invenções tecnológicas de última geração. Elas tem facilitado muito minha vida. Aviso à Bárbara que já estou indo... Faltam quinze minutos para o início do concerto, mas eu gosto de chegar cedo para observar os últimos acordes desencontrados do ensaio prévio da orquestra. Ao colocar os óculos e acionar a sala de concertos, me vejo e me sinto na porta de entrada da filarmônica. Enquanto aguardo a chegada da Bárbara, que não demora mais que um minuto para entrar, mostro holograficamente meu ingresso que é imediatamente checado pelo rapaz na portaria. Ele é sempre gentil e bem vestido. Junto comigo, além da Bárbara - sempre vamos juntas - algumas dezenas de pessoas comuns e que eu já vi outras vezes, surgem também na porta e entram na fila. Elas também ligaram seus equipamentos virtuais. Nosso ingresso é comprado com antecedência para todos os concertos do ano que desejamos assistir e minha poltrona é sempre a mesma. Cumprimento pessoas e nos dirigimos para a porta de entrada do grande salão. Vejo que algumas pessoas se dirigem ao hall de entrada para conversar umas com as outras antes de tomarem seus assentos.

Eu e Bárbara não. Preferimos ir direto aos lugares reservados. sinto o perfume bom que paira no ar. Eles sempre usam um perfume muito delicado e ligeiramente frutado no local. Já assentada, observo então os tais acordes e também às outras pessoas muito bem vestidas que entram e ocupam seus lugares. Percebo que, como sempre, a sala está cheia. É sempre uma surpresa boa perceber que as pessoas gostam de música clássica. Aguardo alguns minutos e ao soar a segunda campainha, os últimos remanescentes da orquestra saem do palco e imediatamente rapazes de preto e luvas brancas entram afim de arrumar os lugares dos músicos no palco. Me animo e fico feliz ouvindo a mistura de burburinho das pessoas com as cadeiras do palco sendo arrastadas. Às 20:30 em ponto os músicos da orquestra tomam seus assentos sob aplausos, seguido do maestro. O concerto transcorre no tempo, divinamente... e eu aproveito cada acorde como se não houvesse amanhã. Minha mente fica absolutamente imersa no fluido musical e me enche de encantamento.

Ao fim do concerto, sob os agradecimentos e aplausos, eu e Bárbara conversamos um pouco, colocamos o assunto em dia, me dirijo à porta de saída e num toque sutil consciente, desligo meus equipamentos virtuais que me trazem num átimo de segundo à minha poltrona em minha casa novamente. Já são 22:30 e eu fico ali por instantes relembrando a experiência fantástica da noite. Fico pensando em como a vida é mais fácil, agradável e segura nestes tempos de realidade virtual.


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